quinta-feira, 12 de março de 2026

Manifesto da Continuidade

Antes de você ler

Deixa eu te contar uma coisa.

Em 2021 eu escrevi um texto falando da saudade do Festival.
Naquela época já tinha tempo demais sem acontecer.
Pandemia no meio. Lei mudando. O mundo meio torto.

Em 2023 a gente até conseguiu aprovar o projeto.
Foi aquela euforia de quem acha que o jogo virou.
Mas não virou.
Não captamos. Não aconteceu.

E aí o tempo foi passando.

Oito anos.

Oito anos longe desse universo que sempre me fez sentir inteiro.
Oito anos tentando não transformar isso em luto.

Em 2026 o Festival voltou.

Mas o que você vai ler agora não é texto de comemoração.
Não é discurso de vitória.
Não é “deu tudo certo”.

É sobre o que custa continuar.
É sobre voltar diferente.
É sobre ficar — mesmo cansado.





Manifesto da Continuidade

O que sobrevive quando o vento não ajuda


Em 2026 o Festival aconteceu.
E não foi milagre.

Foi o menor orçamento da história.
Foi fazer três funções quando antes tínhamos uma equipe.
Foi ajustar o sonho ao tamanho da rubrica.

Foram oito anos longe desse universo.
Oito anos tentando encontrar o caminho de volta.
Oito anos sentindo falta do que me fazia inteiro.

Quando voltei, as regras eram outras.
E o que antes cabia passou a exigir malabarismo.

O festival voltou menor em dinheiro.
Maior em consciência.
Manter o essencial.
Marcar novamente o calendário.

Eu voltei diferente também.

Mais velho.
Mais pragmático.
Menos ingênuo com promessas.
Mais atento aos detalhes que ninguém lê.

Infelizmente, o riso também depende de carimbo.
A arte precisa caber em planilha.
Entusiasmo não paga fornecedor.

O dia da abertura foi lindo.
E pesado.

Lindo porque aconteceu.
Pesado porque eu sabia exatamente quanto custou.

Não em dinheiro.

Em energia.

Sono perdido.
Criatividade comprimida.
Revolta guardada para não comprometer a edição.
Funções acumuladas para fechar a conta.

Não romantizo resistência.
Ela cansa.

Principalmente quando você precisa justificar o óbvio repetidas vezes.

Hoje confio menos em cenários.
E mais em decisões.

Confio menos em discursos largos — e rasos.
E mais em quem aparece na montagem, mesmo sabendo que o cachê é apertado.

O Festival aconteceu em 2026.

Não porque o vento ficou favorável.
Mas porque a vontade sempre foi maior que o vento.

Se em 2027 não aprovar, se não captar —
eu continuo.

Não por teimosia cega.
Mas porque algumas coisas fazem a vida prestar.

O verdadeiro custo de continuar é esse:

mesmo cansado,
ficar.

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